Designação/Título: D. António Alves Martins


Autoria: António Teixeira Lopes (1866-1942)


Datas Relevantes: 1911-02-18 (inauguração da obra)


Materiais: bronze (estátua) ; granito (pedestal)


Dimensões:


Promotor: Grupo de Amigos de D. António Alves Martins


Localização: Jardim de Santa Cristina (Viseu – Portugal)


Coordenadas GPS: 40.656570° ; -7.909855°

Descrição

Torna-se inevitável começar a descrição morfológica deste monumento pelo seu pedestal, já que o mesmo se apresenta absolutamente colossal. Com uma altura de vários metros, esse pedestal surge formado por uma sucessão de elementos em pedra. Ao fundo, exibe dois degraus de planta retangular, aos quais se seguem quatro registos escalonados (metade com as faces rectilílinas, a outra metade com faces côncavas). Neste ponto, interessa também mencionar a existência de uma placa epigrafada em metal, contendo a seguinte menção: «AO / BISPO E POLÍTICO / HOMENAGEM DA / ASSEMBLEIA MUNICIPAL / DE VISEU 1882-1982».

O registo superior do pedestal é composto por um plinto paralelepipédico, disposto na vertical, e por um capitel adornado frontalmente com as armas do bispo viseense. A descrição não ficaria completa sem uma referência às inscrições que preenchem cada uma das faces laterais do referido plinto. De facto, cada face apresenta uma moldura de granito delimitando uma cartela epigrafa, elaborada com um tipo de pedra visivelmente distinto. Os textos que a seguir reproduzimos aparecem incisos e avivados a negro:

– «AO / BISPO DE VIZEU / D. ANTONIO ALVES MARTINS. / DEVOTADO LIBERAL, EVANGELICO PRELADO / E AUSTERO ESTADISTA. / HOMENAGEM DE SEUS ADMIRADORES /  1808-1908» (face frontal);

– «“A RELIGIÃO DEVE SER COMO O SAL / NA COMIDA: NEM MUITO, NEM POUCO. SÓ O PRECISO.” / (D. ANTº. ALVES MARTINS.) / PROTESTOU CONTRA A INSERÇÃO DO SEU / NOME N’UMA MENSAGEM AO PAPA / INFALLIVEL E REI EM 1867.» (face lateral direita);

– «NASCEU NA GRANJA DE ALIJÓ EM 18-2º-1808. / ELEITO DEPUTADO EM 1842. / NOMEADO ENFERMEIRO-MÓR DO HOSPITAL / DE S. JOSE EM 1861. / APRESENTADO BISPO DE VIZEU EM JULHO DE 1862. / ENTRADA SOLEMNE N’ESTA CIDADE EM 29-1-1863. / MINISTRO DO REINO EM 1868 E EM 1870. / FALLECEU POBRE NO PAÇO DE FONTELLO / EM 5-2-1882» (face posterior);

– «“NA MINHA DIOCESE, QUERO PADRES PARA / AMAR A DEUS NA PESSÔA DO PROXIMO; / NÃO QUERO JESUITAS QUE VIVAM DE / EXPLORAR O PROXIMO EM NOME DE DEUS.” / (D. ANTº. ALVES MARTINS.) / CONDEMNADO POR LIBERAL A MORRER / FUZILADO N’ESTE LARGO EM 1834.» (face lateral esquerda).

Dirigindo agora o foco da atenção sobre a figura de Alves Martins, constatamos tratar-se de escultura em bronze, trabalhada em vulto pleno, e na qual o bispo se apresenta de pé e em posição frontal (ainda que com a cabeça e o olhar desviados para o flanco). A sua mão esquerda encontra-se recolhida no bolso das calças e a do lado oposto projeta-se para a frente, surgindo apoiada sobre uma bengala. Em todos os aspetos, sugere uma pose de estadista.

Tratando-se de um clérigo, os atributos religiosos não poderiam estar ausentes. Ao pescoço de Alves Martins pende um colar adornado com cruz e, sobre a cabeça, é possível distinguir a presença de um solidéu.

 

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Sobre a estátua, e em particular a sua colocação, conta Arnaldo Malho no quarto dos seus artigos para a Revista Beiral Alta, publicado em 1952 (Pp. 286-289; referência infra), que se transcreve:

O certo é que, em Viseu, ninguém se entende, nem sabe ao certo o que quer. Vem isto a propósito de um facto local, quase desconhecido e que, por ser uma prova de autêntico mérito dos artistas locais, merece salientar-se, tanto mais que foi uma coisa espontânea e demonstrativa de verdadeiro bairrismo.

Em Fevereiro de 1911, foi inaugurado o monumento ao Bispo sr. D. António Alves Martins. O pedestal, obra do grande mestre Serafim Simões, tinha sido erigido no ano de 1908, em plena Monarquia, mas a estátua, mercê de manobras ao tempo desenvolvidas, só então foi fundida, apesar de o Parlamento ter, anos antes, votado a lei que autorizava o Governo a ceder o bronze e a mandar fundir a estátua na fábrica da fundição do Arsenal do Exército. Chegada a Viseu, começaram os trabalhos para a sua colocação no pedestal e, na tarde do dia 9 de Fevereiro, iniciou-se a subida, mas a aglomeração de curiosos era tão grande que dificultava os trabalhos, dando motivo à sua suspensão para recomeçar a hora mais própria, mesmo para evitar as consequências de um possível desastre como veio a acontecer e do qual resultaram ligeiros ferimentos dum operário do Arsenal que auxiliava o respectivo Mestre.

Quando foi colocado o garibalde que devia subir a estátua, ou por êrro de cálculo ou por não terem varas com a altura precisa, ficou com menos dois ou três metros do que era necessário, dando motivo a que a corrente a trabalhar fosse forçada, deslocando-se, do que resultou que, ao ir ao seu lugar, provocasse um esticão no cabo que sustentava a estátua, que, não aguentando o choque produzido, rebentou, vindo a efígie de bronze que pesa mais de quatro mil e quinhentos quilos, estatelar-se no solo.

Sempre desejosos de tomar contacto com todas as manifestações de Arte, tínhamos deliberado assistir aos trabalhos da colocação da estátua, e sabendo que o içamento da mesma recomeçaria às primeiras horas da manhã, para lá nos dirigimos.

O mestre do Arsenal, António da Silveira, que tinha sido encarregado de dirigir os trabalhos da colocação, tinha perdido as esperanças de a realizar. A inauguração devia fazer-se no dia seguinte e não se via possibilidade de o conseguir. A estátua estava semi-enterrada no solo, parecendo que a sanha dos perseguidores do sr. D. António Alves Martins, que o tinham condenado a ser fuzilado naquela largo muitos anos antes, continuava a perseguir a efígie de bronze e a inauguração teria de ser adiada, a não ser que se desse um milagre, julgado impossível. Mas, o milagre realizou-se por forma que honra Viseu e os seus artistas. Juntaram-se serralheiros de quatro casas diferentes, uns chamados, outros de móto-proprio, começando-se por procurar colocar a estátua no pedestal, para o que era preciso um garibalde de grande potência. Na quinta de S. Caetano havia um que o desventurado João Trindade emprestou e se colocou no cimo das varas.

O Júlio da Maurícia encarrapitou-se a vigiar o carrilamento das correntes +ara evitar novo precalço e uns duma forma, outros de outra, num esforço conjugado, pouco depois do sol nado, a estátua estava no pedestal. Só então se verificou que a avaria era muitíssimo maior do que a princípio se supunha, pois tinha a cabeça a olhar para os pés e a base com um dos cantos levantado, em consequência da pancada dada no pedestal quando caiu, sendo opinião do mestre Silveira que não havia conserto possível e só uma nova fundição poderia salvar do desastre; mas os serralheiros presentes não desanimavam de reparar os estragos.

O mais curioso do caso é que aqueles artistas, que ali se juntaram, num gesto de bairrismo e na ânsia de serem úteis à sua terra, andavam pessoalmente de relações cortadas uns com os outros, mas, naquela hora, trabalhavam como se fossem peças de uma só máquina e, uma vez a estátua colocada no pedestal, realizaram como que uma conferência médica, para estudarem a forma de salvar o doente.

Estava cada um a dar a sua opinião, quando se ouviu uma voz paternal, a dar os seus conselhos. Voltamo-nos e deparamos com a figura veneranda do sr. João Rodrigues de Figueiredo, que, apesar de já estar a meio da íngreme ladeira dos setenta, se tinha abalançado a trepar até ali, num desejo de prestar mais um serviço à sua terra. Escutou o que todos disseram, perfilhou a opinião que lhe pareceu mais aceitável e encarregou o autor da sugestão de dirigir os trabalhos, incitando todos os outros a obedecerem à voz do encarregado; e assim se fez, indo uns ao cominho de ferro pedirem um macaco de grande potência, enquanto outros davam início ao trabalho de reparação; e assim, D. António Alves Martins, que os inimigos não conseguiram fuzilar naquele largo, veio, passados muitos anos, a ser decapitado em efígie – por algumas horas – por modestos artistas de Viseu, admiradores da sua memória. Levou-se a base ao lugar, desamassou-se o peito, colocou-se a cabeça na sua primitiva posição, fazendo-se no local uma pequena fundição para encher a parte falha pelo encalque do metal e, uma hora antes da prevista para a chegada dos ministros do Governo Provisório, que vinham assistir à inauguração, aquela figura de bronze, que as mãos prodigiosas do grande Mestre Teixeira Lopes modelaram no barro, dando-lhe a expressão e a vida, à qual nem o tempo nem a incompreensão dos homens alterou, estava como na hora em que saiu da fundição. O milagre tinha sido realizado pelos artistas de Viseu, deixando surpreendido o mestre António da Silveira, que chorava de alegria, ao mesmo tempo que dizia: graças ao trabalho dos serralheiros de Viseu não perco a minha situação de mestre.

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Arquivo Gráfico

Vídeo

Documentos

  • AMARO, António Rafael; MARQUES, Jorge Adolfo – Viseu: roteiros republicanos. Matosinhos, QuidNovi, 2010.
  • CORREIA, Alberto – Viseu. Lisboa, Editorial Presença, 1989.
  • FIGUEIREDO, António Vicente – Viseu: Santa Maria. História, memória e património. Viseu, Freguesia de Viseu, 2017.

ID da Entrada: NTGD.2019.0036

Ruben Marques (2019-09-27)

Rui Macário Ribeiro (2019-11-01)